Começam os dias de sol, sente-se o cheiro a férias no ar, e começa o meu inferno em casa. A esplanada do café de bairro que há ao lado do meu prédio enche-se de gente com crianças que, ao invés de olharem por elas e de as manterem sossegadas, dão-lhes uma bola de futebol para as mãos e ala que se faz tarde para a praceta que há à frente do meu prédio, mesmo por baixo da minha varanda.
A história seria muito bonita se as criancinhas tivessem bolinhas de esponja e tivessem menos de três anos, mas acontece que as bolas são de futebol e as criancinhas já têm nove ou dez anos. E então vá de chutar contra paredes, contra portas, contra janelas, contra carros, contra tudo, com a desculpa de que estão a jogar futebol, e os pais numa alegre galhofa a beberem o seu cafezinho e a fumarem o seu cigarro. E eu na minha casa (no primeiro andar) a tentar abster-me, em vão, do barulho que é ter uma bola sempre a bater nas paredes do prédio.
Como eu não sou dada a escandaleiras - limito-me a ir à varanda e a dizer aos meninos para chutarem com menos força (escusado será dizer que eles mal me ouvem ) - tenho o meu truque que é ficar com as bolas que vêm parar à varanda. E são algumas. Eles depois tocam à campainha, mas eu, que também sou torta, não lhes abro a porta. Por vezes estão tempos e tempos a tocar, mas eu não abro. Pronto, abri uma ou duas vezes, mas porque estiveram para aí uma hora a tocar e conseguiram vencer-me pelo cansaço.
Hoje ao final da tarde, entre chuvadas, aconteceu o mesmo. O loirinho, que é um puto perfeitamente irritante e insubordinado, andava com uma criancinha de dois anos a chutar como se não houvesse amanhã. Eu já estava irritada porque já tinha batido na porta do prédio, mas mais irritada fiquei quando bateu na porta da minha varanda (felizmente tinha a persiana puxada para baixo, caso contrário teria partido o vidro) e fez um grande estrondo. Ele foi esconder-se, como sempre, porque sabe que eu, estando em casa, vou sempre dar-lhe um ralhete. Mas eu esperei que ele voltasse, e abri a porta da varanda de repente. Disse-lhe o que digo sempre e disse-lhe que não lhe dava a bola que entretanto tinha caído na varanda. Ele também não teve coragem de a pedir.
Foi então que apareceu o pai da criancinha de dois anos a dizer que a bola era dela, mas que não tinha sido a sua filha que a tinha atirado. Eu disse-lhe que estava farta daquilo, ele calou-se, eu fechei de repente a porta da varanda e já ninguém me viu.
Mal eu acabei de entrar em casa, começou a campainha. Primeiro a de baixo. Tocou tanto, tanto, que a minha vizinha do esquerdo lhe abriu a porta. Depois subiu e começou a tocar novamente, e eu a fazer-me de bruxa má. Até que começa a bater mesmo à porta e a gritar - abra a porta, eu sei que está aí, eu quero a bola da minha filha, ela não tem culpa. E, pronto, lá tive eu de lhe dar a bola.
Qualquer dia faço como um senhor que havia ao lado da escola onde eu fiz o primeiro ciclo que cortava todas as bolas que iam parar ao seu quintal.
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